sábado, 23 de julho de 2011

Sobre a eternidade cotidiana


Sempre pensei a vida como um ciclo que não chega ao fim. Uma mutação constante, uma luta heróica para viver em um mundo de desafios, vezes inóspito, mas absurdamente lindo com suas estações de tempo, da existência que pulsa em cada elemento vivo do planeta, em uma escala de tempo que dia após dia anuncia com o amanhecer um passo na caminhada da partida, de uma jornada que tem sua brevidade diminuta frente a existência das estrelas e das galáxias. Um sopro apaga a chama, um vento leve ou uma brisa vindo das brumas leva o grão de areia que sou eu. Falam-me de deuses e profetas. De salvadores da minha alma como se ela estivesse perdida e condenada. Prometem-me paraísos e compensações se me ater a dogmas e doutrinas. Leio todos os livros e ouço todas as cantilenas. Olho o mundo e vejo a dor presente, a fome silente que tortura, os impérios que manipulam o homem comum como simples forma de carbono em linha de produção. Vivo todos os sentimentos humanos e as forças e energias do mundo não me são estranhas. Deleto os dogmas e seus ascetas, vivo o mundo humano, esse de alegrias e tristezas, de felicidade e dor, de paixão e amor. Vivo com a noção da finitude sem desespero ou desesperança. A morte dói, e ela é uma companheira minha a longo anos. Já estivemos juntos em vários momentos e em longas noites. Olho seu olhar e acaricio sua face todos os dias. Vamos vivendo inseparavelemente como velhos amigos que um dia iremos nos encontrar para uma viagem sem portulanos antecipados. A morte me apresenta a vida com a beleza  surpreendente e apaixonadamente encontro também a próxima mudança que acontece. Algo novo nasce do caos e dos escombros. Algo inesperado muda todas as previsões. Não busco na fé salvar minha descrença no mundo ou na vida porque vida/morte são faces da mesma historia. Algo termina para que algo nasça em seu lugar. O que inquieta não é a morte mas a ausência da consciência de estar vivo. E neste sentido muitos já morreram  e não sabem.A noção de um bem, de agir corretamente e com respeito a outra vida me dá um sentido de uma realidade supra humana. É com o ser mais rasteiro e vil que partilho minha existencia neste planeta. Ele faz parte desta corrente e fluxo de vida/morte/tempo. Mas, tenho a liberdade de ser diferente, de ver no outro uma centelha de uma força maior que não tem tradução ou explicação chamada Deus, simplesmente Deus, que por ter criado o universo está nele em tudo e nao precisa de templos santuosos, de ritos enganosos, do poder temporal...Ele é a consciencia universal do qual sou ciente...
Sempre pensei a vida como um ciclo que não chega ao fim... a consciência  me permite a eternidade mesmo que fugaz...

Um comentário:

  1. Sabe quando li a MENINA QUE ROUBAVA LIVROS era a Morte Narrando uma História;Sua Sensibilidade(se me permite fazer uma ponte)traz a mente a mesma Emoção que me fêz chorar...Como já disse antes ADORO sua Escrita...Ela me faz refletir sempre!!!

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